Jeitinho Brasileiro

Já vimos que a cultura nacional interfere na cultura organizacional e agora é o momento de considerar alguns traços da cultura brasileira que são visualizados na cultura das empresas brasileiras.
Os especialistas apontam pelo menos 5 traços nesta cultura nacional e que não podem ser desprezados:

1) A hierarquia
A cultura nacional define uma tendência à centralização do poder dentro dos grupos sociais. Ao mesmo tempo, promove um distanciamento nas relações entre diferentes grupos sociais e , ao mesmo tempo, consolida e legitima a passividade e aceitação por parte dos grupos menos privilegiados.
Muita gente acha que essa cordialidade brasileira (a nossa convivência mais ou menos pacífica) tem a ver com o fato de que a gente, normalmente, não questiona a autoridade. As pessoas mais simples se conformam com o fato de que "isso é assim mesmo" e tendem a encarar a superioridade dos outros como natural.

2) O personalismo
A nossa sociedade está baseada em relações pessoais e (puxa, mas isso é verdade mesmo!) cultivamos a proximidade e o afeto nas relações (nossa herança portuguesa e africana pesam muito!). A gente se encontra e já se abraça, se beija, somos temperamentais, sensíveis, chorões e até gostamos de uma fofoca. Talvez seja por isso que todo mundo gosta do brasileiro (e principalmente da brasileira!).

3) A malandragem
Epa, aí está um traço marcante da nossa cultura e tem tudo a ver com o chamado "jeitinho brasileiro". Nós somos, felizmente, bastante flexíveis e nos adaptamos com facilidade a situações adversas, culturas adversas etc. Tem brasileiro vivendo (e se dando bem ) em qualquer lugar: nos Estados Unidos, na Antártida, no Japão, na Tailândia etc. A gente só percebe quando a seleção brasileira joga num país desses. Não sabemos como , mas surge brasileiro em qualquer lugar. A gente se espalha e a gente se enturma, a gente ocupa os mais diversos rincões desse planeta. Nós somos assim . Somos capazes de ganhar dinheiro vendendo sorvete para esquimó. Você já não ouviu falar isso? E não acredita que é verdade? Queremos levar vantagem em tudo, certo?

4) O Sensualismo
Ah, o sensualismo brasileiro. Temos um gosto fantástico pela exibição e pelo exótico nas relações sociais. Não é por outro motivo que as mulatas que desfilam seus corpos monumentais fazem sucesso no mundo inteiro. A gente até concorda que não há mulher mais sensual que a brasileira, mas, como a aula é séria, já vamos desviando do assunto porque podemos aterrissar em outra praia e sair falando besteira por aí. Mas o brasileiro gosta de um "amasso" e isso é indiscutível. A nossa linguagem está recheado de sensualismo. Quer uma prova? A gente se refere às pessoas de uma maneira singular comparativamente a outras culturas. Eta mulher gostosa! Ela parece um docinho de côco. E assim por diante. As nossas relações são comparadas com comida. Aliás (desculpem os mais conservadores), a gente diz, sem muito constrangimento, que "quer comer alguém" e não somos antropófagos! Alguém duvida do nosso sensualismo? Ele está na alma.

5) O espírito aventureiro
Não dá para negar: o sonho da maioria dos brasileiros não é o mesmo do grande empresário Antônio Ermírio de Morais: não é trabalhar o dia todo, sem tempo para o descanso e a folia. Pelo contrário: somos aventureiros e pensamos em ganhar na Loteria para ficarmos o resto da vida de "papo pro ar". Temos uma aversão ao trabalho manual ou metódico, não somos disciplinados. Queremos sempre achar um jeito de "queimar etapas", planejamos pouco e logo partimos para a ação. Queremos alcançar sucesso logo. Muita gente acha que esse negócio de trabalhar a vida toda para ter uma vidinha sem graça "não está com nada". Que tal o Silvio Santos, o camelô esperto que deu certo? E se a gente ganhasse no "baú da felicidade" ou na Megasena? Diferentemente do japonês, a gente não está , em geral, pensando em dar duro o tempo todo, não temos essa paciência e esse jeito metódico de ser.

Todos esses traços da cultura brasileira são observados na cultura das organizações brasileiras, em maior ou menor grau. A cultura nacional está impregnada na nossa pele e é reforçada, todo dia, desde que nascemos. Ela nos acompanha em todo lugar, inclusive nas organizações.



AZEVEDO,F. A cultura brasileira: Introdução ao estudo da cultura no Brasil.3.ed.São Paulo: